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Um plano de recuperação verde para o Brasil

Empresas começam a identificar a interconexão entre o bem-estar dos negócios, das finanças e do planeta

Valor Econômico - 22/06/2020
Por Marina Grossi


As crises são recorrentes na história da humanidade. Elas vêm e vão, com maior ou menor potencial de impacto socioeconômico, dependendo da sua força e capilaridade e da nossa resiliência. A atual crise sanitária global é, sem dúvida, um caso extremo, que nos exige reações rápidas e soluções emergenciais para garantir a nossa sobrevivência.

Ainda não é possível mensurar com precisão consequências globais da pandemia, nem sociais, nem econômicas. Mas já sabemos que serão devastadoras. No Brasil, país com um tecido social absolutamente despreparado para enfrentar crise sanitária com tal dimensão, os efeitos podem ser catastróficos.

Há um senso de urgência enorme nesse processo de mudança dos modelos de negócios até 2030

Embora ainda haja forte pressão por resultados financeiros, o setor empresarial já tem apresentado sinais de que está despertando para o que a ciência vem alertando há anos: há total interconexão entre o bem-estar dos negócios, das finanças e do planeta.

Os próprios investidores começam a se mexer neste sentido, sinalizando que o resultado econômico a qualquer custo pode, no médio e longo prazo, comprometer a sobrevivência das empresas. Neste mundo em crescente interconexão, onde a licença para uma empresa operar vem não apenas dos acionistas, mas de todas as partes interessadas, além das variáveis de retorno e risco, a tomada de decisão desses financiadores é cada vez mais influenciada pelo impacto social, ambiental e de governança de um negócio.

Por ter força e representatividade na estratégia das empresas, esses investidores têm papel determinante para influenciar e reorientar o “core business” para um modelo mais sustentável. Um exemplo emblemático está no posicionamento lançado no início do ano pelo executivo Larry Fink, presidente da BlackRock, maior gestora de fundos de investimento no mundo, que disse que ‘a sustentabilidade e as mudanças climáticas estão remodelando as finanças e os investimentos’.

De fato, estão mudando, mas não no ritmo e escala necessários para cumprirmos as metas que nos impusemos até 2030: reduzir drasticamente as emissões líquidas no mundo, atender com saneamento básico toda a população do planeta, garantir educação para todos, e eliminar a miséria. Há um senso de urgência enorme nesse processo de mudança dos modelos de negócios até 2030.

Alguns executivos já perceberam que a variável do impacto ambiental, social e de governança tem peso estratégico e emitem sinais fortes para o Brasil, principalmente, vindos da Comunidade Europeia. Em maio, um grupo de 40 empresas de varejo e investidores internacionais que tem negócios com parceiros brasileiros enviou uma carta ao Congresso Nacional manifestando preocupação com o impacto, na Amazônia, do projeto de lei 2633 sobre regularização fundiária. A mensagem alertava que isso colocará em risco a capacidade dessas organizações de continuar a comprar do Brasil no futuro. Sinalizações de investidores sobre a necessidade de cumprimento de um novo padrão no processo de produção que atenda às exigências do mercado serão cada vez mais frequentes.

Melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) ganham cada vez mais atratividade por estarem associadas a negócios mais sólidos e com menor custo de capital. Existem hoje no mundo mais de 1,2 mil empresas, governos, bancos centrais e outras instituições aderentes às recomendações em pilares de governança, estratégia, risco climático e transparência de dados e informações da empresa. Essa pauta cresce na agenda do setor financeiro, dos grandes investidores globais, e, claro, também no Brasil.

Afinal, essa pauta tem peso estratégico inclusive para a agenda de crescimento de um país. Relatório publicado pela Universidade de Oxford apontou que o desempenho ambiental, social e de governança das empresas pode melhorar o crescimento econômico dos países onde operam. A pesquisa mostra uma correlação positiva significativa entre o desempenho médio das empresas em indicadores ESG, a melhoria do PIB per capita e a redução no desemprego em seus países.

A conclusão de que a promoção de boas práticas ESG no setor privado é uma maneira importante pela qual os formuladores de políticas públicas podem acelerar o desenvolvimento econômico tem um diferencial particular neste momento, uma vez que os governos planejam liberar grandes volumes de recursos - o G20 prevê a injeção global de US$ 5 trilhões - para recuperar as economias, resgatar empresas e salvar setores atingidos pela pandemia. Ao associar a liberação de recursos a critérios de governança e de impacto socioambientais, será possível gerar demanda para negócios mais resilientes, e assim criar condições para um desenvolvimento de qualidade, capaz de enfrentar, em outro patamar, os grandes desafios do século XXI.

Alguns países já demonstram engajamento com a agenda da recuperação verde. Líderes do Reino Unido, União Europeia, Nova Zelândia e outros países se comprometeram a tornar a ação climática, por exemplo, uma questão-chave em seus pacotes de recuperação econômica. No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau determinou que as grandes empresas que receberam empréstimos divulgassem seus planos ambientais.

Embora ainda seja necessário observar os efeitos concretos dessas medidas, são iniciativas que podem servir de inspiração para o Brasil. Ao vincular condicionalidades - social, ambiental ou de governança - ao crédito e pacotes de retomada, é possível estimular a transição para um modelo de negócios mais sustentável e inclusivo.

Evidentemente, há neste momento nas empresas preocupação genuína e imediata com liquidez e contingências, além das incertezas sobre a retomada pós-pandemia. Porém, é preciso não perder o foco e garantir que possamos aproveitar a oportunidade para construir a transição para uma nova economia, com abordagens diferentes no trabalho, nas relações com o capital, energia, água e consumo. O princípio-base prevê pensar os futuros possíveis, sistêmicos e com propósitos, em uma economia de escala e amparo a todos os elos da cadeia produtiva. Não perder o foco e, mais que isso, ajustá-lo em uma nova rota.




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