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Alemanha, país-sede da CoP-23, não cumprirá sua meta climática

A apenas 50 quilômetros de Bonn, a antiga capital alemã que hospeda até dia 17 a conferência sobre mudança do clima das Nações Unidas, existe um buraco gigante e cinzento que, dizem os ativistas, é a maior fonte de emissões de CO2 da Europa - a mina de carvão de Hambach operada pela RWE.

Valor Econômico - 13/11/2017
Por Daniela Chiaretti | De Bonn

A apenas 50 quilômetros de Bonn, a antiga capital alemã que hospeda até dia 17 a conferência sobre mudança do clima das Nações Unidas, existe um buraco gigante e cinzento que, dizem os ativistas, é a maior fonte de emissões de CO2 da Europa - a mina de carvão de Hambach operada pela RWE. O carvão e os combustíveis fósseis usados nos transportes são apontados como os culpados por um grande desconforto no evento: a Alemanha, país anfitrião da CoP-23, tem pouca chance de cumprir suas metas climáticas para 2020.

As estimativas apontam que quase um quinto das emissões de CO2 da Europa vêm do setor de carvão, e Alemanha e Polônia seriam responsáveis por metade disso. O país que hospeda a CoP-23 (que é presidida pela primeira vez por um país-ilha, Fiji) é o maior emissor europeu, com 900 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2015, sem considerar as emissões pelo uso da terra. É quase o dobro das emissões da França.

A Alemanha está comprometida com duas metas, a europeia e a nacional. O compromisso do bloco europeu é reduzir em 20% as emissões de gases-estufa em 2020 e em pelo menos 40% em 2030 em relação a 1990. Neste ponto não há problema. O país já alcançou um corte de 28% nas emissões.

A questão é que a Alemanha perdeu seu próprio alvo climático. A meta alemã é de cortar emissões em 40% até 2020. A ministra do Meio Ambiente Barbara Hendricks admitiu recentemente que o país precisa de esforços adicionais para atingir a meta. Seguindo a curva atual de emissões, o país chegará a apenas 32%. "Se a Alemanha quer permanecer como um líder climático tem que anunciar imediatamente um plano para fechar usinas de carvão", diz Lili Fuhr, líder da política ambiental internacional da Fundação Heinrich Boell, ligada ao Partido Verde alemão.

Para fechar o intervalo que existe entre a redução atual das emissões e o que é necessário para atingir a meta, a Alemanha tem que parar de emitir 150 milhões de toneladas de CO2. "Estima-se que isso só pode ser conseguido a tempo se 20 usinas a carvão forem fechadas", explica Martin Kaiser, diretor-executivo do Greenpeace Alemanha. "Desistir de 20 usinas de carvão não levará a Alemanha a ter um apagão energético", continua.

"Para entender o dilema alemão é preciso olhar o mix energético do país", diz o cientista social Thomas Fatheuer, autor de vários livros sobre desenvolvimento sustentável. Na Alemanha, 40% da energia vêm do carvão, sobretudo o mais poluente deles, linhito. O percentual cresceu muito para compensar o desligamento das nucleares que ainda respondem por 13%, diz ele. Energias renováveis são 30% da geração, 12% é gás. "O desafio agora é substituir carvão por renováveis".

Há gargalos. A produção eólica é muito forte no Norte da Alemanha, mas não no Sul e há resistência em atravessar o país com linhas de transmissão. A Alemanha ainda têm três grandes regiões com extração de carvão, que emprega entre 15 mil a 30 mil trabalhadores.

"Um modo eficiente de reduzir a dependência ao carvão é colocar um preço mínimo de € 30 a € 40 por tonelada de carbono", diz Ottmar Edenhofer, economista-chefe do Instituto Climático de Potsdam, o PIK. Assim o gás se tornaria mais econômico e poderia entrar na matriz alemã. "Mas é preciso que a Europa tome uma medida conjunta para ser eficiente", continua.

O outro item da descarbonização alemã é mais sensível - transporte. Na Alemanha, o lobby da indústria automobilística é comparável ao do agronegócio no Brasil.

Na campanha eleitoral, era parte do programa do Partido Verde pedir o fim dos veículos a combustão a diesel e gasolina até 2025 e o fim do uso do carvão. Agora, o carvão é tópico importante no debate da coalizão que a chanceler Angela Merkel tenta fechar para seu próximo governo unindo seu partido democrata-cristão (CDU) aos liberais do FDP e aos Verdes. Na semana passada, os Verdes deram sinais de que estavam mais flexíveis no item sobre carros. "Mas não posso imaginar que saiam de uma negociação sem um compromisso claro em relação ao carvão, diz Fatheuer.

Na primeira conferência do clima presidida por um país-ilha, que estão entre os mais afetados pela mudança do clima, o discurso da quarta-feira da chanceler Angela Merkel será um momento importante. "A grande questão é se ela irá permanecer no compromisso dos 40% de redução", diz Kaiser.

Observadores da fase de sondagens da negociação da coalizão dizem que membros da CDU questionam até os dados apresentados pela ciência. Os liberais dizem que a meta dos 40% não é legalmente vinculante e a Alemanha deveria ser livrar dela. Para os Verdes, contudo, livrar-se do carvão é ponto crucial da identidade do partido.

A jornalista viajou a Bonn a convite do Instituto Clima e Sociedade (ICS)




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